Pequenas violências.

Eu ainda durmo quando ouço os passos na escada enferrujada, que chega a minha janela, aberta para aproveitar as brisas de outono. Tento não acordar, de verdade, mas a culpa não deixa. O som das botas pesadas no metal podre e oxidado me faz levantar, de sopetão. Eu chego perto da porta que guarda as minhas armas e pego uma pistola. Não é ela – penso na mesma hora – ela não se prestaria a tanto para me surpreender. Você pode, com essa revelação achar que eu não devia pensar tanto numa mulher que não faz a menor questão de me agradar, e você está certa, provavelmente. Mas o fato é que eu atarracho o silenciador e miro nos black-outs que uma morena me fez comprar. A brisa sopra e uma das frestas mostra um careca com poucos dentes e olhar de bocó com uma arma na mão. PFOULP! Eis que a minha mira não condiz com a minha falta de educação matinal e acerta a testa do tolo com precisão. Muito amador, muito barulhento. Cai o corpo, eu ouço uma pancada. Estou no décimo andar de um prédio no centro antigo de Manchester e os meus medos eram até então bombas caseiras sendo preparadas por Pakis despreparados. Esse tolo não foi amador de graça. Não ouço outros passos vindos da escada do lado de fora e então percebo que a minha atenção devia estar na porta. Too late, sinto o cano frio de outro silenciador na minha nuca. Você vem comigo e calado – diz a mulher coma voz fria e rouca. E por alguns segundos, eu, tolo, ainda fantasio que se ela estivesse ali, do meu lado, me veria quebrando o braço desta intrusa com um golpe rápido e a matando, com sua própria arma. O faço. Pena que ela não viu, ela se excita demais com as minhas pequenas violências.