Peter Zarustica visita Las Vegas – Parte 02

Saio do banho disposto a me divertir pois eu sei que os próximos dias serão de pura tensão. Ela está deitada, acho que adormeceu finalmente. Volto para o closet abotoando uma camisa e visto o terno azul claro que denuncia que não sou daqui – não pela cor pálida e pouco usual, mas pelo seu corte, com lapelas curtas e sem bolsos. Faltam as meias, ei-las, e os sapatos. Ah, falta também um lenço. Se houve uma coisa que o meu pai me ensinou além de tudo sobre especulação imobiliária foi a necessidade de um lenço na vida de um homem. Sento-me num banco que parece feito para os pianos de Elton John e meus olhos pegam um brilho, de soslaio. Eu me agacho e vejo que é a chave que vim carregando com todo o cuidado desde a França, numa boceta Louis Vutton tipo necessáire. O que ela estava fazendo no chão? Olho para a bolsa maior, e vi a tal necessáire dentro dela, fechada. Estranho. Volto os olhos para a cantora, que, desinibida, dorme o sétimo sono, com as pernas abertas, mostrando uma depilação que parece ter sido feita em Miami – mas foi feita por ela mesma, na minha presença, ontem a tarde. Bom, não há muito o que fazer, ponho a chave no meu pequenino molho preso às minhas calças com uma mini-algema e saio do quarto. O sapato não é virgem, mas está lustrado, e nenhum idiota pode questionar o meu cacife neste hotel. Acho até que passarei as próximas horas sem gastar qualquer tostão – o estilo de gestão hoteleira americana me poupa qualquer trocado caso achem que eu estou disposto a perde-los sem esforço no Bacarat. Pois, não me importa, aperto o botão do elevador com um sede de champanha que me faria pagar qualquer conta por algumas taças d’ouro líquido. As portas se abrem, são dois sujeitos meio deslocados, meio adolescentes. Eu entro no elevador, e quero fazer uma piada como de costume, mas eles estão com iPods e eu desisto sem tentar. O que me lembra, tenho que silenciar o meu celular.