Quando os sapos aprenderam a voar.

Sapos olham um outro sapo. Um sapo meio esquisito, que passa mais tempo embaixo d’agua e dá saltos bem altos. Uma espécie estranhamente atraente, pois não tem a mesma pele que os outros, nem o formato exato de corpo que os outros costumam ter. Um sapo que seduz os outros sapos e rãs - bom, a maioria deles - para fazer o que bem entende. Esse sapo percebe que é diferente, desde cedo. Ele sofreu um pouco com isso mas a desde que a sua pele endurecera ele parece ter aprendido a gostar de ser ímpar – ou ao menos aproveitar suas diferenças a seu favor. Ele nota que os outros prestam muita atenção nele, mais do que deviam. E não entendi ainda se por sarcasmo – há quem curta um sarcasmo – ou se por pura vaidade, ele resolveu fazer dele mesmo um embuste. Resolveu que bancaria o jogo da diferença, que daria aos sapos o que eles querem. O sapo diz que pode voar. O sapo diz que é outra coisa. Não é sapo. “Vocês não veêm? Minha pele não é como a de vocês, eu não fico no brejo, estou sempre nadando. Sapo uma pinóia – não me ofenda!” O sapo diz que não tem hipotálamo, que é invencível e cruel, e que não tem qualquer clemência por rãs perdidamente apaixonadas (algumas só querem girinar incessantemente com ele). Até agora alguns tentaram voar – muitos com êxito. Outros acreditam estar diante de um ser sem sentimentos, vil e pedante, quando se aproximam dele. Alguns decidiram que girinar sem envolvimentos é a melhor forma de viver. Mas ninguém conseguiu parar de prestar atenção nele. E nem de leva-lo tão a sério. Ele é um sapo, acredite.