Saudade.

“J’ai perdu, je m’incline, j’ai compris
Et je disparaîtrai de ta vie…”
E. Daho, La Baie

Não perdi – nem vou, saiba – mas sempre penso em sumir quando te deixo em casa. Sempre penso em ir até a Patagônia a pé, ou pegar uma carona num barco para a Ásia. Sempre penso em evitar, a todo custo, o que se passa na minha cabeça quando tu estás nela. Sinapses psicodélicas, discursos infinitos decorados (obviamente esquecidos quando tu estás na minha frente) e uma confusão contra-produtiva. Não adianta, não há chance de te esquecer. Quaisquer palavras tuas me tiram da toca, e aquela que estava guardada com calma e carinho no canto, para que eu pudesse viver livremente, rompe as amarras com vigor e me toma, sem me deixar em paz um segundo. Um segundo eu digo. E sou eu que tenho que te ver em cada embalagem de shampoo, de queijo importado ou garrafa de champagne. Ou de pinga. E não por uma noite, como antigamente, quando eu achava que sabia o que era sentir falta de alguém, mas por semanas, noites, dias, manhãs, tardes e sonos nervosos. Entranhamente sei que vale a pena, mas não gosto de sentir tão entregue assim, sem controle. O problema é que eu não sei o que fazer, e desta forma, aparentemente, ainda te tenho por algumas horas a cada bimestre. Deixa como está, eu aguento. Só queria que tu saisses de minh’alma na hora de dirigir, evitando assim os inúmeros acidentes.