Sinfonia para Maio.

Acordo tarde após uma noite inteira em frente a tevê, passando de canal em canal e só parando para ver comerciais que me seduzem a comprar coisas que não preciso. Lavo o rosto mas o gosto amargo da minha boca não sai nem com listerine. Sinto a tua falta e vou ao piano. É assim que eu sei lutar, assim que eu fui treinado. Meu dedo pesado cai numa tecla que boceja uma nota… mas me soa muda – deve ser dó, que não sinto desde que tu me deixaste assim. Sou forte e continuo, pensando no quando eu quero quebrar todas as regras contigo. São três os dedos agora, não consigo mais que isso, não uso sétimas. É um acorde de esperança, um acorde assertivo. O começo de uma harmonia que me emociona, e que me identifica. É a trilha sonora da teu rosto insone, amassado, me olhando cheia de graça de longe, no fim da primavera mais longa da minha vida, no aeroporto mais sem-graça de Londres. São notas que, acho, com um violão e uma voz sorturna, podiam, quem sabe, me fazer sentir o tempo passar mais rápido.