Sobre a escrita.

Eu deveria escrever sobre uma italiana baixinha que morava nas redondezas do meu bairro de infância. Sobre o quanto ela era diferente, inadequada. Sua mãe sempre reclamava sobre a vida que ela levava, saindo com ternos extra-largos, com gravatas, cintos e meias combinando, em cores cintilantes. As vezes sabia-se que ela virava a esquina da nossa rua, pois ela estava sempre cantando com uma voz esganiçada. Muito católica e muito segura. Mas eu não ouso. Minha inadequação sempre foi maior que a dela, mas a segurança dela me inspirou. Eu deveria escrever sobre um surfista que eu conheci. Ora ele ameaçava me bater, ora ele me tratava com dignidade e me ensinava sobre coisas que até hoje eu não experienciei. Certa vez, poucos anos atrás, ele tentou me atropelar, sem sucesso. Eu poderia escrever sobre uma loja que pertencia a um fiscal da aduana, que apreendia discos importados e os vendia, a preços módicos. Houve uma época, no começo dos CDs, em que todas as fitas k-7 estrangeiras entraram numa promoção, e eu andava a pé para casa para compra-las, uma a uma, com a tarifa do ônibus. Uma delas me causou tanta curiosidade que tive de repensar meus conceitos artísticos. Outra, me fez mudar de país. Uma terceira me fez adquirir a fama de um sujeito vanguardista – fama que mantenho sem esforço algum hoje em dia. Mas eu não escrevo sobre nada disso. Eu perco minhas noites preciosas ouvindo musicas gravadas em mono e pensando em formas de te expurgar da minha vida, as vezes em forma de texto, as vezes em forma de choro.