Sobre a minha amante.

Ela não faz o que eu quero, não se empenha. Não tem sapatos adequados às minhas fantasias, mas tem cabelos lindos e se veste de preto – mas sem achar que o mundo é feito de perdedores. Não atende os meus telefonemas por que não ouve, e é verdade, eu acredito. Não está solteira mas as vezes se sente só. Sexta de manhã e ela me faz sorrir. Sexta de manhã e ela me inspira. São mundos de gente acordando todo dia com uma disposição incrível para serem mais amados, entram em academias, gastam tubos com fraudes de comunicação, precisam se sentir quistos, precisam se sentir desejados. Sofrem tanto para sofrer menos. Estamos na sociedade de consumo, onde precisamos ser consumidos para, à noite, antes de chorar, nos sentirmos melhores que os amigos de infância, que tanto nos machucaram. Precisamos ser felizes. Ela também. Mas o que me fascina nessa mulher que usa plataformas para tentar equiparar a sua estatura a sua grandeza – impossível, digo, joga esta merda fora, desista – é o fato dela não só querer ser feliz como admitir isso para si mesma. E toda sexta-feira de manhã, para mim.