Sobre a minha visita à Polônia de 1989. Parte 1

Movido por motivos outrora nobres – entre eles a cadeia de protestos não-terroristas terroristas contra a guerra, instalada por um website de quinta categoria – que me exilaram do convívio social por 24 horas, fui a uma cidadezinha que parou no tempo. Senti como se estivesse visitando a Polônia de 1989, um pouco antes da subida de Lech Walesa ao poder, onde havia um misto de tensão e marasmo, de comodismo e de esperança. Cheguei a cidade de trem, ou melhor, de bonde, e fui acomodado em um hotel de nível razoável. Ao menos razoável para a Polônia de 1989.      

Estava no 13° andar, num quarto com uma cozinha modesta e uma banheira de agua quente. Da pequena sacada eu podia ver a torre da igreja que a poucos metros do hotel vazava a luz da lua cheia nos meus olhos. Caí de cansaço numa cama de casal estranhamente curta e apaguei… por alguns minutos, pois, à meia-noite fui acordado pelo retumbante sino que era meu vizinho de janela. Doze badaladas, e um pressentimento leve de que eu não mais conseguiria dormir.

Alguém bateu a minha porta, três vezes. Não encontro nada que não um moleton daqueles velhos, do fim da década de 80, e vesti-me para atender. Era uma polaca, linda, olhos claríssimos e pele alva. Ela me disse que sabia porque eu estava lá e se convidou para entrar. Claro que eu, um cavalheiro, e mais, um bon-vivant, prontamente abri espaço para a sua passagem enquanto eu pegava o que ela trazia na mão. Um saco de broas pequenas, com queijo na massa, e um estranho vinho doce gaseificado alemão – Fantastik.

Ela não me parecia comum, tinha uma inocência mal desenhada, um jeito de quem queria muito, mas sabia pouco. Ela me jogou um catalogo e ascendeu um daqueles cigarros coreanos com essência de laranja. Antes d’eu começar a maldizer a Coréia, minha culpa hedonista me causou preocupação por ter pedido um quarto não-fumante. Mas também, sejamos francos, aquele hotel não estava muito preocupado com o que acontecia nos seus aposentos… digo pela enorme mancha  no carpete.
As unhas pintadas de um vermelho escuro me jogaram um catalogo. Na capa havia uma frase em polonês e embaixo, colado com fita adesiva, um papel escrito “Fuck Local Girls” em rosa choque. Abri o catálogo. Num inglês demente, era dito que o serviço tinha as acompanhantes mais belas do centro-leste europeu. Natashas, Erikas, Pamelas. “Elas têm o mesmo nome, não importa onde se vá” pensei, cínico. Continuei folheando, até que cheguei em Anna – e a minha visita estava nua de pernas abertas na minha mão!
Olhei para ela e ela apagou o cigarro. Se aproximou de mim e me beijou suavemente, devagarinho sabe? Eu me empolguei e a puxei contra mim, pelas cadeiras, e depois pela nuca, e percebi que ela estava nervosa. Era um garota, por todos os céus! Não devia ter nem 18 anos e já estava ali, sendo beijada por um sujeito que nunca havia visto antes, cuja barba estava enorme devido a tempo que tomara chegando a cidade. Eu não sei bem explicar o porquê, mas estava excitado com a coisa, e não havia mais nada a fazer senão comê-la.