Sobre a vida debaixo d’água.

Ela é bonita, ao menos eu acho. Nada como poucas e nunca subiu até a superfície. Mora debaixo d’água, mexe-se para lá e para cá, mas tem uma vida meio monótona. Vive conversando com peixes, tubarões e cavalos marinhos, mas não conhece os corais, as enguias e nem as lulas. Não nasceu com barbatanas, ou pés de pato – mas comprou, sabe-se lá onde. Também não tem guelras, não é estranho? Quando ela sente frio, ela chega um pouco mais perto da praia e sente o sol aquece-la. Quando se sente sozinha por muitas vezes chora, e sente pena de si mesmo. Mas umas tantas outras ela mata sua carência falando com um pescador.

Esse pescador odeia a água, não gosta mesmo. Ele fica em cima de um barco, e pega vários tipos de peixe com uma vara. A maioria para comer, é fato, mas alguns ele passa para frente, alegrando amigos e ganhando assim o respeito de todos. Ele pesca por esporte, e apesar de parecer um profissional, não ganha dinheiro com isso. Ele realmente gosta da coisa. Um dia, há muitos anos, ele a viu nadando lá de cima do barco. No começo achou que era mais um peixe, e que ia ter comida para uma semana. Mas ela o chamou para a água, e ele, curioso, entrou, com calma, molhando suas bermudas de linho. Conversaram, ele boiando, olhando para baixo, sem afundar, e ela sem pôr a cabeça fora d’água. Ele percebeu que podia pega-la ali mesmo, com as mãos, leva-la para o barco e trata-la como mais uma pesca. Ele provavelmente ganharia um prêmio pela qualidade e tamanho da pesca, e ainda teria o que comer por dias e dias. Mas falando com aquela criatura tão charmosa e tão sofrida ele resolveu que a deixaria ir, achando que no dia seguinte ela voltaria. Pois, antes de se despedirem ela levantou a cabeça, cuspiu um ar segurado por anos e tascou-lhe um beijo. Depois prendeu a respiração e voltou a submergir, sumindo no fundo do mar. Ele sabia que ela estava ali, mas não conseguia mais vê-la.

No dia seguinte, ela não subiu, não o chamou nem passou por ali. Ela estava assustada demais com a experiência de respirar, não se sentia a vontade, não sei direito. Mas o fato é que ela forçou-se à sua rotina pretensamente interessante, mas chata e solitária. Muito tempo depois, ela não aguentou e subiu. Ele estava lá, como esteve todos os dias, pescando e esperando. Até hoje eles se encontram, esporádicamente. Mas só quando ela se sente só.