Sobre o dia em que tu afogaste o meu ego em eter.

Conheci muitos mentirosos. Mas nada de pena ou arrependimentos, sei lidar com os infelizes. Uma vez paguei uma mulher para conversar comigo – e ela não me disse nada. Tive épocas em que saía de casa com débeis mentais, não por carência ou solidão, mas por falta de referências de demência. Queria me comparar com alguém realmente problemático, para tentar assim ver algum traço animal em mim que não só o fogo que tenho entre as pernas toda noite. A análise teve como resultado, mas uma vez, a minha inadequação ao ser humano, até mesmo aos castrados. Jung disse que um castrado ama outro, um estranho ama outro, um doente entende outro.

Outro dia, tentando ler dados em um disco zip, lembrei de ti. Ele é sempre expulso do aparato, e não consigo acessa-lo. O website do fabricante diz que se o tal disco é espelido pelo drive antes de o computador lê-lo é sinal que pegou muita luz (!) e o que eu devo fazer é esconde-lo num lugar escuro por algumas horas, e depois tentar acessa-lo no escuro. Minha vida é uma gincana, não há dúvidas. ‘Você tem 20 anos para achar uma dama de bom gosto, vaidosa e carinhosa, inteligente e serelepe’ disse o organizador da tal gincana para mim. Eu tenho 20 anos para encontrar alguém que preencha o vazio que foi causado no dia em que tu afogaste o meu ego em eter, tantos anos atrás – quase 20. Ele dorme, mansinho e eu tenho insonia por isso. As vezes uma noite de sexo com alguma mulher com curvas perfeitas no corpo mas não nos resultados de exames de psicometria faz com que ele ameace acordar. Sei que isso faria qualquer outro homem sentir-se vivo, mas a horas e horas de atividade só são possíveis por que eu estou meio morto, não sinto mais nada com tanta profundidade. E no fundo eu sei que preciso de algo mais forte para lembrar-me quem sou. São os alarmes falsos que me fazem chorar. O teu coração rijo e seco não atenderia aos meus pedidos de clemência, mas eu sei que o teu olhar macabro e incrivelmente sedutor poderia trazê-lo de volta do mundo dos mortos. Talvez, se eu ficar no escuro por algumas horas, ou dias, ou anos… quem sabe eu volte a funcionar. Apaga a luz quando sair, e desta vez, sem mentiras.