Sobre o que passa lá dentro.

Ela acorda, numa cama enorme. Além dela, há algumas pequenas almofadas pretas, uma cueca – tipo boxer – e umas camisetas. Não se lembra como chegou ali, nem se gostou. Ganha a consciência aos poucos, apalpando o colchão a procura do celular. Dos brincos. Do sutiã. Ouve um ruido familiar, é o chuveiro. Ela se arrasta para fora da cama e olha no chão uma garrafa vazia de Mumm. Talvez fosse uma boa hora para parar de beber, ela pensa. Talvez fosse uma boa hora para tomar um banho - continua – mas eu tenho medo do que eu vou encontrar no banheiro. E se ele for horrível agora que eu estou sóbria, ai, ele não estava sozinho, meu deus, onde que eu tava com a cabeça. Que horas são? Cadê meu celular, ah, tá aqui.. 2 missed calls – foda, que saco. Ah ótimo. Não perdi nada.

Ela levanta e procura por suas meias. O barulho do chuveiro cessa, uma risada marca. Está sentada na cama, botando as suas meias felpudas, as puxa até o meio da canela, e as dobra, com cuidado, acima do tornozelo. Não acha a calcinha mas sabe que dá tempo de parar em casa antes do trabalho – viu as horas no seu novo Nokia. Ainda não se acostumou com ele mas é fácil, é sempre meio parecido. Cata a saia no chão e entra nela com as duas pernas de uma vez. Quem testemunhasse aquele momento veria uma moça linda, com o rosto fino como as suas sobrancelhas, esbelta e com belas pernas, puxando a saia para si como uma adolescente. Boca borrada de batom, coisa que ela nunca usa. Umas pequenas marcas nos punhos, nada demais. Abotoa a blusa – acho que está do avesso – tira, olha, e põe de novo.

Good mornin’ sunshine, quer tomar um banho? - digo. Ela pensa – Eis uma coisa que eu não suporto nele, toda hora falando em inglês. Que saco, quer se mostrar? Meio pedante, meio ególatra, esse cara. E me responde com um certo nervosismo – Não criança, tô atrasada já, tenho que ir. Enquanto me enxugo na sala, nú, a outra vem do banheiro. Risonha e me abraçando por trás, me beijando as costas. Ela encosta os cabelos loiros na minha nuca e com um sorriso lindo dá bom dia a nossa convidada, que sorri, se despede, e praticamente foge da minha casa, esquecendo um par de brincos que posteriormente será guardado no meu Lost & Found.

Ela aperta o elevador com insistência, como se ele fosse chegar mais rápido assim. Não estava realmente atrasada mas queria fugir dali o mais rápido possível. Entra no elevador e vê que está com o rosto todo borrado, leva a mão a boca, lambe a ponta dos dedos e tenta melhorar o batom e o rímel espalhados. Adianta pouco, mas é tão cedo que não vai cruzar com ninguém na rua. Entra num taxi e pede pressa, silencio e ar condicionado. Em 8 minutos está em casa.

O senhor pode esperar? 10, 15 minutos no máximo. Pode? – resmunga, e antes que o motorista vire a cabeça gorda para responder, ela já está fora do carro, pronta para bater a porta. Sobe um lance de escadas já com a chave na mão e tudo em que pensa é que tem de ser rápida – não dá mais para ficar gastando dinheiro com taxi assim. Mas é só agora, uma emergência - mente para si mesma – hoje a noite eu nem vou sair mesmo. Entra em casa, corre para o banheiro, liga a torneira, olha para o box, não tem calcinha, volta para pia e lava o rosto. Passa o creme que comprou com a amiga no Fashion Mall – custou caro mas valeu a pena, a amiga agora acha ela uma pessoa mais sofisticada, e ela mesmo está acreditando nisso, para te ser sincero. Algodão, limpa o creme, pronto. Desodorante. Eu odeio não tomar banho depois de sexo. Não acredito que eu deixei aquela menina por a boca em mim. Devia ter parado nos beijos. Devia ter feito como em Nova York, aquela vez que eu fui com a Carlinha. A gente se beijava e todo mundo ficava louco, dava drink para a gente e toda a boate nos olhava. Até aquele negão lindo me deu mole. Queria ter dado para ele. E passa pente no cabelo, automático, ela nem pensa, faz isso todo dia. Toda hora. Continuam os devaneios: Se alguém da clínica sabe onde eu tava com a boca há 4 horas atrás ninguém mais fala comigo, ai, ou só aqueles idiotas do raio-x. Ou então sei lá, acho que vão falar mas não vão mais me respeitar. Essa distância que eu mantenho tem um preço. Eu sou da Zona Sul, eles me acham diferente. Eu sou mesmo. Não quero eles sabendo da minha vida. Eu tenho que pegar mais leve com a Eloá, não posso ficar me abrindo tanto assim. Acho que ela não fala nada para ninguém mas nunca se sabe. Além do que ela não tem que saber de tudo. Você tem que ser mais discreta Renata – briga com si mesmo, na sua própria cabeça.

Corre para a área e tira uma calcinha do varal. Pensa se mantém os sapatos de boneca que estreou ontem a noite. Deveria, economizaria tempo, e o taxista está lá embaixo. Mas não consegue, e puxa uma sandália alta, de couro, bege clara, que estava no chão da cozinha esperando por ela. Tira as meias, e calça, apoiando-se na pia. Lembra que comprou salada e que ainda não comeu – vai estragar, ai que saco, mais dinheiro no lixo. Troca a camisa mas mantém a saia rodada, porque o jaleco com certeza vai cobri-la. Abre a geladeira, olha de novo para a salada, orgânica, e pega um Actívia, desses de beber. Puxa a bolsa que ficou presa a porta do banheiro e sai, batendo a porta.

Horas depois, no laboratório, ela se pega pensando em mim. Nada demais, não é paixão, eu sei e ela sabe. Mas ela esboça um sorriso quando as coisas começam a se encaixar. Ela perde a concentração por um segundo e repousa a mão com a ponta da caneta na prancheta que está usando. Ela lembra das apostas que fizemos na noite anterior, do que ela ganharia se beijasse a minha namorada, do que ganharia se me beijasse. A idéia de chupar o meu pau no banheiro foi dela, e é nessa hora que a caneta cai da mão e ela sorri muito sem graça, mas morrendo de orgulho de si mesma. Leva os dedos ao rosto, cobrindo os olhos que não vêem ninguém na sala. Ela está sozinha e os calafrios que sente por ser ela mesma refletem no seu corpo. Ela está inqueita. Olha para a caneta que caiu no chão e sorri de novo, dessa vez esboça um som – meu deus - tenta falar. Endireita o jaleco, e se agacha para pega a caneta, e se recorda de estar naquela posição com uma outra mulher horas antes. Ainda não tomei banho, estou com cheiro de sexo, todos devem perceber. Ela fecha os olhos e sonha por dois segundos que está sendo estuprada por mim. Excita-se, mas logo abre os olhos, levanta e fala alto, como se alguém mais fosse ouvir: preciso comprar o meu ingresso dos Pet Shop Boys.