Sobre o tempo em que fazíamos mix-tapes.

Eu sou do tempo em que se agradava alguém com um mix tape. E por anos, a pessoa presenteada tinha aquele bem precioso, decorava a ordem das musicas. Por anos ela cantava a primeira linha de uma musica qualquer sempre que outra, que a precedia na fita, acabava na rádio. A fita se tornava um peça só. Como um filme, com partes tristes, felizes, tensas… mas que faziam sentido unidas na ordem que o editor nos mostrou. A fita cassete não existe mais, eu sou de uma outra época. E eu fico imaginando como eu faria um mix tape hoje em dia para agradar quem eu quero tão bem. Não estou falando de técnicas, que há décadas atrás eram basicamente voltadas para o manejo dos botões rec e pause. Estou falando da atmosfera que eu quero passar. Chamavam-me de louco nos anos 60, quando eu ia aos cinemas nos subúrbios de Paris ver filmes em línguas que eu não entendia, sem subtítulos. Eu gostava de sentir o clima do filme. Gostava de ver como o filme me fazia sentir.

O meu mix tape de hoje se eximiria da contemporaneidade. Se eximiria de referencias, estragaria qualquer expectativa de reconhecimento. Sons variados, sem sentido aparente. Comerciais turcos, gritos de felicidade e horror e rádios sovieticas cujas transmissões ainda navegam no ar depois de décadas, segundo os físicos. Músicas dissonantes, em rotações diferentes, ao contrário, distorcidas ou muito baixas, como um som de vento leve, que ouvimos na quinta que temos em Nice. Versões alternativas, que não deram certo, que nunca sairam… Instrumentais com a minha voz por cima, dizendo que tudo vai ficar bem. O meu mix tape se eximiria de qualquer sentido lógico, tal como a paixão. Tal como a distância.