Sobrepeso.

Ia à escola todo dia, quando moleque, nunca faltava. Sofria como um cachorro na China, odiava tudo, da minha roupa até o mais bacana dos inspetores. Até o meu material me fazia sofrer – e duas vezes, pelas brigas da minha mãe que reclamava da bagulhada que eu carregava nas costas, e da própria mochila, que eu fingia não estar tão pesada justamente para confrontá-la. Eu achava que precisava estar preparado para tudo e levava coisas que não pareciam ter utilidade real, como pacotes de sal, livros de ficção e alguns tocos de madeira. Sempre acreditei que eu fosse viver uma aventura e não voltar para casa. Achava que se um dia a fome apertasse, eu poderia comer o sal dos pacotinhos de papel e assim evitar dores de cabeça que eu sentia, quando a insônia me atacava e eu não podia ir até a cozinha para não acordar a família toda. Os pedaços de pau eu realmente não lembro para que estavam lá, mas me eram muito preciosos. As vezes eu passava todo o intervalo olhando para algum deles, deixava formigas andarem pela superfície e as observava, como uma câmera hoje em dia segue um maltrapilho em shoppings da zona sul. Meus livros sim, este tinham função. Eram os que me acompanhavam quando não havia mais ninguém em volta disposto a não prestar atenção a aula, sempre idiota. Eu costumava me perder de tal forma, que não era incomum o texto fazer com que a minha risada rasgada interrompesse os professores, treinando-me para respostas rápidas e desculpas esdrúxulas – ratificando essa fama injusta e dolorosa que eu tenho de louco. Um dia eu sai de casa para a tal aventura, e nunca mais voltei, e cá estou escrevendo em um computador velho. Pouco mudou, eu ainda saio de casa pronto para o que for, cinco cartões, cheques, iPod com música para duas semanas e um celular desses pequenos, leves. Minha mãe não mais reclama de mim, eu sempre como de madrugada – comida também. Mas não importa o que eu faça ainda sofro com o peso que carrego nas costas.