Sorte.

Sou um cara de sorte. De todo tipo de sorte, de sortilégios, de coincidências. Minha ducha do banheiro tem um desvio em um de seus jatos, que espirra a água em um determinado ângulo que acerta em cheio a minha saboneteira e assim perco os meus Dove mais rapidamente que o resto do mundo. Eu peço artefactos caríssimos pelo correio internacional e a triagem da alfandega não me sobretaxa nunca – e qualquer pessoa que tenta comprar um CD perde mais e mais dinheiro ao receber oa encomenda. Nunca fui assaltado. Nunca perdi dinheiro. Uma vez eu comecei a me relacionar pela internet com uma garota de Kansas, nos Estados Unidos. Ela me contou que era abusada pela meia irmã e eu a convidei para gravar uma música, chamada Sinister Big Sister. A música virou um compacto, e para a capa eu escolhi umas fotos bizarras de uma outra garota, de Nova Iorque, que havia escaneado o próprio rosto conseguindo resultados estupendos. Pois. A tal garota da capa era, coincidentemente, a meia-irmã que molestava a cantora. Nunca entendi essa. Zufall, dizem os germânicos. Eu reclamo, mas não houve uma coisa na minha vida que eu não mereci. De rompimentos sangrentos até acidentes domésticos eu plantei tudo que colhi. E acho que ainda assim tive sorte. Sou estelionatário, vou preso a qualquer hora. Sou galinha, vou ser traido também. Não ligo, acho que das punições possíveis vou ter as menores, e sempre, sempre vou merece-las.