Sun King.

Amanheceu da mesma forma de sempre, com um friozinho aconchegante e com tons muito escuros de azul no céu. Alguns engravatados já saiam de suas casas nos subúrbios com seus carros comprados por causa de séries de tevê a cabo. Da minha janela eu vejo um mendigo acordando, uma secretária típica apertando o passo ao passar pelo mendigo e um moleque de ipod olhando para a bunda da tal secretária. Um ônibus faz a curva lá no restaurante chinês, eu acho que vai para a rodoviária, não sei. Volto para cama, deito e olho a janela por alguns minutos. Vários pássaros vêm e vão, param no topo do prédio da frente, voam, param na minha sacada de ferro enferrujado, voam de novo, e eu não percebo nada. Meu olhar está fixo nas nuvens. Não sou de achar que essas coisas acontecem, mas eu nunca fui de prestar tanta atenção no céu assim.

Meia hora depois, eu meio que dormindo, sinto um calor que não sentia desde a infância, no Brasil. Acordo e ouço segundos depois o celular tocando. És tu, que me liga afobada. Liga a tevê, liga a porra da tevê! - gritas. Eu não esperava um bom dia meu amor, nada disso eu ouço há anos. Mas alguma educação, bons modos, savoir faire, sempre é bom. Meu controle está perdido pela cama gigante, mas eu acho e aperto o power. É a BBC mostrando o sol roxo, soltando fogo, enorme. Vem do norte o inferno na Terra – diz a manchete. Ireland is no more – começa o âncora muito sério. Eu volto ao telefone, me lembrando de ti, e tu já gritavas com toda força: Fudeu Pete, fudeu, o que vai ser da gente, acabou! Mesmo entendendo o problema eu brinco, pensei que já tinha acabado honey. Tu me atropelas dizendo que não adianta ir para Londres, que não dá tempo, que os voôs estão hiperlotados, e que não estão voando para oeste,só mesmo fugindo para a Asia e Africa do Sul. Eu falo, sério – Pega a porra do carro e vem pra cá, eu dou um jeito. E tu replicas, eu quero passar por isso contigo, morrendo ou não, vamos estar juntos. É a primeira vez em anos que tu és sincera contigo mesma, e a ultima que me tratas como eu mereço. No caminho de Stockport para cá teu carro, preso no transito, ferve. Eu, ao desligar o telefone volto a janela e a luz do astro-rei me cega. Eu deito, desesperado, e desligo a tevê, que me aborrece. Atordoado durmo. Tu morres queimada no asfalto da M60, chorando pelo tempo perdido. E eu faleço dormindo, sonhando que tu ainda és minha.