Y.M.C.A.

Ela tinha passado boa parte da jovem vida estudando. Negou-se aos prazeres mundanos que nos edificam tanto quanto um livro empoeirado. Passou cinco anos sem aceitar vários convites triviais – como uma cerveja, em pubs locais, com colegas da faculdade, depois de aulas pouco estimulantes. Mas uma certa vez ela foi ao cinema ver um filme que a fazia lembrar de sua infância, quando morava com a avó. Era sábado, uma re-exibição. Sentiu-se uma irresponsável pagando o preço cheio, tendo algum momento para si mesma, que não era voltado para a sua formação – e no fundo sentiu-se viva, mesmo com tão pouco. Voltou para a casa sentindo-se culpada e com vergonha de sorrir, mas sorrindo mesmo assim. Era um fim de tarde com raios de sol laranja, dequeles que batem na janela mostrando a poeira da casa. Subiu até seu quarto de cara fechada, mesmo sabendo que estava sozinha na casa que dividia com sua amiga de colégio, e trancou a porta. Encostou-se relaxada no umbral que mostrava o banheiro e gargalhou, escorregando até o chão. Adormeceu.